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O boneco-esponja Black Power e a afirmação identitária do negro no Brasil

Artigo escrito por Tia Eron, deputada federal, coordenadora nacional do PRB Igualdade Racial e presidente do PRB Bahia

21 de jan. de 20164 min de leitura

Uma polêmica que se instalou na mídia brasileira essa semana me chamou a atenção. Um famoso reality show da Rede Globo de Televisão nos apresentou, em horário nobre, um boneco-esponja negro, com cabelo Black Power, usado para lavar a louça, denominado pela emissora como “elemento rústico e moderno”. O utensílio, produzido por uma empresa britânica, foi importado para compor o visual da ‘famosa casa’.

Para além de um simples objeto de uso doméstico, é preciso refletir o quanto isso, simbolicamente, fere a nossa identidade, já que a valorização do negro e o resgate de sua cultura acompanham sua estética, e um dos pontos mais marcantes nessa relação é justamente o cabelo.

O nosso cabelo crespo é uma marca identitária. A história de afirmação do Black Power, por exemplo, em todo o mundo, passa por aspectos físicos, sociais, políticos e culturais da história do povo negro. Desde os anos 20, o ativismo negro na Jamaica já buscava essa aproximação com as raízes africanas, e já lutava para romper os “padrões de beleza eurocêntricos”. E como não destacar ainda, na década de 60, a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, que também deu espaço ao movimento afro. Essa valorização da cultura negra, sua beleza e até a moda, tem no movimento Black Power um divisor de águas, onde, aliaram-se conceitos de estética às lutas político-sociais. A própria caracterização do boneco-espoja, com uma roupa típica da década de 70, que foi um marco da época, está sujeita a ridicularização.

Discursar que o Brasil tem a maior população negra fora da África é simples e fácil. Difícil é conviver, diariamente, com as manifestações racistas, reproduzidas em um preconceito racial que se revela nas situações mais simples de nosso cotidiano; na simbologia da inferioridade do negro para com o branco; muitas dessas manifestações encobertas em frases delicadas e eufemismos, disfarçadas num mito de democracia racial.

Recentemente, uma escola de São Paulo emitiu um aviso entre as crianças orientando que as meninas adotassem o cabelo ‘liso’ pra que ficassem ‘bonitas’ para uma apresentação de final de ano no estabelecimento educacional. Essas e tantas outras práticas evidenciam o que já sabemos, que a cultura branca europeia ainda prevalece em nossa sociedade. Sem falar nos episódios racistas sofridos por personalidades, da mesma emissora que traz o boneco-esponja, como a atriz Thaís Araújo e a jornalista Maria Júlia Coutinho.

E é nesse ambiente hostil e preconceituoso que o negro constrói e reconstrói, cotidianamente, sua identidade, e o cabelo tem papel fundamental, nessa busca da autoafirmação. Inquieta-me bastante refletir sobre os referenciais apresentados à nossas gerações futuras. Os estereótipos de beleza impostos são cruéis com a nossa identidade e coíbem, cada vez mais, a aceitação, sobretudo de crianças e jovens, em se assumir enquanto negros e negras. Precisamos impedir que certas práticas continuem se perpetuando em nossa sociedade, e punir, de forma dura, aqueles que as reproduzem. Que xingamentos como ‘neguinha do cabelo duro’, ‘neguinha suja’, ‘neguinha burra’, deixem de existir nas famílias, nas escolas, ou em qualquer outro ambiente de convívio social, para que nossas crianças não alimentem uma espécie de auto-ódio pela imagem.

E então ficamos a nos perguntar: como é que vamos avançar na construção de uma identidade negra positiva em um País onde, historicamente, é ensinado às nossas crianças negras (com representações como o citado boneco-esponja), que é preciso negar-se a si mesma, a sua cor, a seus costumes, e a seu cabelo, para ser aceito na sociedade?

Todo esse contexto só aumenta nossa responsabilidade como parlamentar, e nos mostra que estamos no caminho certo, no Congresso Nacional, em propor ações para endurecer as leis e as punições contra os crimes de racismo.

Portanto, é difícil engolir o discurso de que o tal boneco-esponja é uma homenagem. A caracterização sugere que nossa cultura, que já é alvo de piadas e injúrias todo o tempo, em letras de músicas, programas humorísticos, etc…, está ali, resumida a uma esponja que serve apenas para lavar pratos e panelas. O ‘inofensivo’ utensílio desconsidera que o Black Power foi e é um movimento que vai além de padrões estéticos. Significa luta, resistência, busca por direitos e afirmação identitária. Sim, meu cabelo crespo é minha identidade. Respeitem isso, por favor.

*Tia Eron é deputada federal, coordenadora nacional do PRB Igualdade Racial e presidente do PRB Bahia

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