
Brasília (DF) – Lembrar o Holocausto não é suficiente, é preciso agir. Com essa mensagem central, a Câmara dos Deputados realizou sessão solene em alusão ao Dia Nacional de Lembrança do Holocausto, a pedido do deputado Gilberto Abramo (Republicanos-MG), nesta quarta-feira (15).
Em um momento em que o antissemitismo e os discursos de ódio voltam a crescer no Brasil e no mundo, parlamentares, líderes comunitários, representantes diplomáticos e um sobrevivente do regime nazista reafirmam que a memória das vítimas só cumpre seu papel quando se traduz em atitudes concretas de combate à intolerância.
Para o deputado Abramo, o Holocausto não foi fruto de uma ruptura súbita, mas de pequenas permissões, concessões morais e omissões que aconteceram dia após dia. “Ele foi construído, passo a passo, com pessoas comuns que, diante do erro, escolheram não reagir. Talvez a pergunta mais honesta que possamos fazer hoje não seja ‘como isso aconteceu?’, mas ‘o que estamos tolerando agora que, no futuro, será incompreensível?'”, afirmou Gilberto Abramo.
O presidente da Confederação Israelita do Brasil, Cláudio Lottenberg, alertou para o perigo de a memória do Holocausto se tornar um discurso automático. Para ele, é preciso sair da posição de observadores e assumir a de responsáveis.
“É preciso coragem para sair do consenso confortável, para não aplaudir o que todos aplaudem. Porque, no fim, não é a lembrança que impede tragédias, é a disposição de agir quando ainda há tempo. Hoje, mais do que prestar uma homenagem, nós somos chamados a assumir uma posição. E posição não se declara apenas em discursos, se prova em atitudes”, concluiu.
O cientista político e presidente executivo da StandWithUs, André Lajst, chamou atenção para o crescimento do antissemitismo ao redor do mundo. “Uma pesquisa recente, encomendada pela StandWithUs Brasil e aplicada pela Atlas Intel em fevereiro deste ano, revelou que 30% dos entrevistados não gostariam de ter judeus em seu círculo de convivência”, disse.
Na avaliação dele, o antissemitismo não é um problema restrito à comunidade judaica. “É indicador do estado moral de uma sociedade. Onde ele cresce, outras formas de intolerância também crescem. Onde ele é relativizado, a própria democracia se fragiliza”, afirmou Lajst.
Rasha Athamni, encarregada de negócios da Embaixada de Israel, estruturou a importância da recordação do Holocausto em três eixos: passado, presente e futuro. No que tange ao passado, a diplomata ressaltou a necessidade de lembrar os 6 milhões de judeus assassinados pelo regime nazista. Sobre o presente, destacou a importância de ouvir os sobreviventes enquanto ainda estão vivos. Por fim, ao abordar o futuro, Athamni alertou que o antissemitismo não pertence ao passado e continua a se manifestar em novas formas, inclusive no Brasil.
“O ódio que construiu os campos não pertence ao passado. Ele nunca desaparece sozinho. Ele espera, muda sua linguagem e sua aparência. Nos últimos anos, mesmo aqui, em um país que acolheu muitos sobreviventes, esse ódio existe na forma de incidentes antissemitas e redes neonazistas.” Ela defendeu que a educação é a principal ferramenta de combate a esse ódio, capaz de proteger a sociedade como um todo, reafirmando o compromisso global de “nunca mais”.
Foi também com esse propósito que o sobrevivente do Holocausto Gabriel Waldman discursou. Nascido em 1938, em Budapeste, na Hungria, ele chegou ao Brasil em 1949.
“No Torá, a Bíblia judaica, consta que nada é por acaso. Durante toda a minha vida eu me perguntei por que seis milhões morreram e eu estava vivo. Mas quando fui descoberto pelas organizações, que me convidaram para dar cursos e palestras, descobri o motivo de estar vivo. É o que norteia toda a minha atividade agora que sou aposentado. Isso justifica, até certo ponto, o fato de eu ter existido”, disse.
A deputada Geovania de Sá (Republicanos-SC) sublinhou que o evento não se resume à recordação do Holocausto. “Não estamos aqui apenas para recordar fatos históricos, estamos aqui para preservar memórias, honrar vidas e reafirmar compromissos.” Diante do ressurgimento de discursos de ódio em diversas partes do mundo, ela enfatizou que o Poder Legislativo possui a responsabilidade histórica de atuar como guardião dos valores democráticos, da liberdade religiosa e do respeito mútuo entre os povos.
Texto: Ascom da Liderança do Republicanos na Câmara
Fotos: Júlio Dutra

