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Debaixo desta rua existe um rio

Artigo escrito por Atílio Francisco, vereador pelo PRB São Paulo.

10 de fev. de 20154 min de leitura

Venho há algum tempo me preocupando com o problema da água na cidade de São Paulo, mas um fato curioso chamou-me a atenção: o editorial do Jornal Folha da Vila Prudente com o título, “A novela do monotrilho” não só pelo atraso da obra, mas pela profundidade com que o assunto foi tratado, quando se referiu ao Córrego da Mooca que fica abaixo da Avenida Anhaia Mello e que sua existência parecia do desconhecimento dos responsáveis pela obra. Talvez, tenham apenas subdimensionado a força que o homem precisa para destruir um córrego.

O anonimato dos nossos córregos leva a população ao esquecimento da sua existência e da sua importância, os debates acontecem apenas sobre os projetos instalados sobre o asfalto: onde instalar uma ciclovia, uma faixa de ônibus, um monotrilho, ou onde colocar mais um radar.

Os córregos são lembrados quando atrapalham a construção de uma obra, e sempre no verão, quando suplantam o descaso com que são tratados e invadem ruas e avenidas criando um novo curso d’água sobre o asfalto a procura do leito de um rio para desaguar, castigando uma população que paradoxalmente, sofre de falta de água em suas torneiras.

Eu me pergunto: Até quando a existência de mais de 300 córregos e rios com mais de 1.500 km de extensão existentes na Cidade de São Paulo serão ignorados, esquecidos e escondidos por uma camada de asfalto ou de concreto?

Sabemos que a disponibilidade da água por habitante vem se reduzindo a cada década. Em 1950 o mundo tinha 2,5 bilhões de pessoas, hoje somos 7,2 bilhões habitantes. O crescimento populacional e industrial das últimas décadas vem comprometendo as águas dos nossos rios, córregos, lagos e reservatórios, sendo progressivamente poluídas pelo lançamento de esgotos domésticos, industriais, agrotóxicos e resíduos sólidos urbanos.

A preocupação na recuperação de rios poluídos vem ocorrendo há algumas décadas pelo mundo e em alguns casos não apenas revertendo, mas incorporando-os ao convívio com a população. Citarei alguns rios que foram recuperados cujo custo/benefício para a sua recuperação torna-se difícil de ser calculado pelo bem que trará a sociedade ao longo dos tempos.

Veja alguns exemplos. O Rio Cheonggyecheon, em Seul na Coreia do Sul, revitalizado em apenas quatro anos. O seu renascimento surgiu da implosão de um enorme viaduto que ficava sobre o rio criando em decorrência, um grande projeto de transporte público. O Han, também na Coréia do Sul foi outro rio que passou pelo mesmo processo em seus 514 km de extensão.

O Rio Tâmisa em Londres com um longo e interessante histórico de poluição. O Rio Tejo, Lisboa, maior rio da Europa ocidental, foi revitalizado em apenas quatro anos.

O Sena, em Paris, foi degradado por conta da poluição industrial e o recebimento de esgoto doméstico e o Reno com extensão de 1,3 mil km nasce nos Alpes Suíços passando por seis países europeus, e que era conhecido como a cloaca a céu aberto também foram recuperados.

Conscientizar a sociedade para uma educação ambiental é fundamental e imprescindível. Agora, culpar exclusivamente a sociedade pelo desperdício é colocar todo o peso da responsabilidade em um único ombro. Não foi o povo que poluiu os rios e córregos, aterrando- os ou transformando-os em valas de esgotos.

Ambientalistas vêm há algum tempo ressaltando a necessidade da preservação, elaborando análises e providências para os problemas existentes, que tende a ficar cada vez mais grave num futuro próximo, apresentando-se como uma das maiores ameaças para um tempo que não está distante.

Estou propondo um projeto para que onde houver na cidade de São Paulo a existência de uma nascente, um rio ou de um córrego abaixo de uma rua ou avenida seja colocada sua identificação com os seguintes dizeres: “ABAIXO DESTA AVENIDA EXISTE UM CÓRREGO”, citando seu nome.

Irei também propor o tombamento das nascentes da cidade, adequando-as a projetos urbanísticos.

Acredito que com esta identificação poderemos fundamentar e despertar na população uma educação ambiental mais concreta, não apenas a do desperdício e do lixo jogado na rua, mas uma resposta do porquê das torneiras vazias, o porquê das inundações e das invasões das águas em suas casas, para que ela possa cobrar dos atuais e futuros governantes, efetivas propostas para este mal que se arrasta há décadas, sem culpar a natureza por chover muito quando inunda ou pela seca quando chove pouco.

*Atílio Francisco é vereador em São Paulo e autor do livro “Respeito à Experiência”.

Autor do Projeto de Lei Tarifa Zero para Estudantes/2012,
aprovado pelo prefeito.

 

MunicipalArtigoAtílio FranciscoCrise hídricaSPVereador(a)
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